Como explicar o Natal para as crianças norueguesas

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As crianças acordaram hoje perguntando sobre a neve e o trenó. O porquê de não termos em casa uma chaminé. E se poderíamos ir fazer um boneco de neve lá fora antes do café da manhã. Eu… hesito. Nem sei por onde começar. Devo falar sobre o movimento do globo terrestre e explicar que as estações do ano são diferentes no norte e no sul? Ou começo falando que, mesmo se aqui nevasse, não temos quintal. Moramos em um pequeno apartamento sem espaço para chaminé. Nem o próprio Papai Noel caberia aqui, ele é grande demais para os 47 metros quadrados em que já mora uma família nos trópicos. Mas estes desencantamentos não cabem em conversas infantis, ainda mais em datas festivas. Aqui nos falta de tudo do que aparece nos desenhos que as crianças assistem. Eu sempre soube que não deveria deixar as crianças assistirem a esses desenhos educativos falados em inglês. Nosso café é bem pouquinho, sempre foi, aqui não é a casa da Lola e é difícil cozinhar com tanto calor. Por isso me surpreendo quando a mais velha me diz que está com muita saudade de tomar eggnog no café da manhã. Ela saber falar eggnog não me causa surpresa. Outro dia, quando comentava sobre os diferentes tipos de orquídeas da floresta tropical e me perguntou sobre alguns nomes das subespécies das plantas, a única coisa que consegui responder foi que eu havia estudado em escola pública e não assitia TV paga quando era criança. Ela não entendeu a ironia, foi quando cedi a um simples “eu não sei” meio com cara de derrota e a sensação de perda de autoridade. O que me surpreende mesmo é como as crianças podem sentir saudade de algo que nunca viveram. Enquanto faço uma gemada fingindo acreditar que aquilo é eggnog, também me lembro de várias coisas que me causam uma imensa saudade. Sinto saudade de lugares que nunca fui, Paris é um deles. Sinto saudade de gente que nunca conheci e, às vezes, até imagino como seria bom que se elas viessem para o jantar. Sinto saudade dos livros de contos que não escrevi, e, ainda sim, imagino as capas e os títulos do tamanho certinho da lombada combinando na minha estante. Sinto saudade ainda de amores não vividos. Aquelas pessoas que você ama silenciosamente, apesar do pouco convívio. A gemada está pronta e a única coisa que consigo dizer com os olhos meio úmidos é que as crianças norueguesas que nunca foram à praia também sentem muita saudade do mar e da areia quente em dia de sol. A saudade do que a gente não conhece é sempre a que mais dói.

A lama em Mariana e em Brasília

Mariana

Jovens do MST foram presos enquanto pediam a punição por crime ambiental da Vale e da Samarco. Como já estamos relativamente acostumamos com a prisão, a violência e o uso de força desproporcional contra manifestantes (incluindo estudantes secundaristas, seus pais e professores) esta notícia poderia não chamar atenção, não fosse pela ironia de que eles foram presos precisamente sob a acusação de … crime ambiental. Na última quarta, 25/11, quatro integrantes do MST sujaram com lama um dos corredores da Câmara para protestar contra o novo código da mineração e a impunidade no caso de Mariana. Como parte de uma intervenção, o MST escreveu a palavra “morte” na parede. A escrita foi considerada uma pichação e como pichar uma edificação ou monumento urbano é um grave crime ambiental, os manifestantes podem passar os próximos quatro anos presos (soma-se ainda as acusações de injúria e resistência).

A lei contra crimes ambientais no Brasil (9.605/1998), protege não apenas a “natureza”, mas também a “cultura” definindo que o ambiente é composto por flora, fauna, recursos naturais e patrimônio cultural. A inclusão de patrimônio cultural é importante porque protege inclusive saberes de populações tradicionais como indígenas e quilombolas. Além disso, a separação entre natureza e cultura é algo artificial, convenção nossa, “ocidental”. Mesmo para quem não queira se aventurar na leitura de Bruno Latour para tratar da dicotomia natureza/cultura ou ainda de Judith Butler para discutir o lugar do biológico e do social na dicotomia sexo/gênero, o próprio discurso ecológico nos alerta para as consequências do fato de nós, seres humanos (sapiens culturales, já que é a cultura é que nos diferencia dos outros animais) nos vermos como separados da natureza, exteriores a ela. Esta relação senhor/escravo que impusemos à natureza é exatamente o que explica os crimes de Mariana e outros tantos.

É louvável que a lei contra crimes ambientais entenda a cultura como parte indissociável da natureza protegendo também o patrimônio cultural. O que é descabido é termos a esquizofrenia de vermos uma punição maior para uma ação de protesto do para um crime contra a vida do planeta (das pessoas, das plantas, animais, rios, oceanos). Caso os manifestantes do MST permaneçam presos, ao sair eles provavelmente irão reencontrar os seus, ao contrário de muitas famílias de Mariana que ainda estão em busca de seus parentes, amigos e filhos. Ao que consta, a parede da Câmara dos Deputados foi limpa e passa bem, era só argila. Já em Mariana e nos outros locais em que a lama se espalha, será preciso bem mais do que água e sabão. Carecemos de muito mais.

 

Pequenas táticas para politizar o cotidiano (Parte I)

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Outro dia, fui convidada para dar uma entrevista para a Revista Veja. Ao comentar com um colega de trabalho sobre minha dificuldade em sintetizar as ideias, ouvi que não era preciso me preocupar tanto. Afinal, eu não iria comentar sobre “política”, iria falar “só” sobre comportamento. Gostei muito do encorajamento, mas este “só” me deixou pensativa.

Entendi desta fala, vinda de alguém que tem seu espaço na mídia para falar sobre conjuntura política, partidos e demais temas do funcionamento institucional do poder que as pautas se dividem em dois tipos: as de política (estas sim, potencialmente perigosas) e as de comportamento (inofensivas, afinal, quem dá importância de fato para os temas ordinários e menores da vida cotidiana?). Que eu me lembre, eram nas seções sobre cotidiano, comportamento e seus equivalentes que costumávamos ver os obituários (quem, nascido após a II Guerra, lê obituários de jornais em pleno 2015?).

Eu havia sido chamada para falar sobre gênero (um termo tão amplo quanto as disputas conceituais que envolvem suas diferentes definições). Aparentemente há um fascínio recente da mídia pelos antropólogos como especialistas que podem falar sobre qualquer coisa que se pareça estranha. Confesso que este fascínio é menos culpa dos jornalistas e mais culpa dos antropólogos pelo tratamento histórico que demos ao “exótico”. Mas, graças a este fascínio, sou chamada para comentar o beijo gay da novela, meninos brancos e ricos querendo usar saia em colégios particulares ou meninos pobres e negros das periferias querendo comprar roupas da Hollister e outros temas aparentemente tão banais quantos estes.

Visto deste ângulo, a quem interessa tais banalidades? Desimportâncias da vida cotidiana? Para nós, os antropólogxs, ainda importa, por exemplo, se escrevemos “o” ou “a” ou “x” para falar deles, delas, delxs. Esta não foi só uma moda passageira. E importa porque pensamos as maneiras como nosso outros/outrxs constroem o que chamamos de “marcadores sociais da diferença”. Por que, no final das contas, importa como nossos outros – os meninos da escola, as meninas da marcha das vadias, as donas de casa, os guarani, os cientistas, os operadores da bolsa de valores, os pastores, e por ai vai – como estes outros constroem a sua política cotidiana. Ora mais próximos, ora menos da política que se torna mais óbvia no funcionamento institucional do poder: partidos, igrejas, ministérios, congressos, tribunais, sindicatos.

Se o meu colega se sente falando de política de verdade quando comenta sobre os rumos do governo Dilma, eu me sinto igualmente falando sobre política quando comento sobre movimentos sociais, feminismo, pobreza, novela, consumo, ou sobre como as pessoas usam seus paus de selfie, seus corpos ou o Facebook, por exemplo. Aliás, nem penso que exista uma divisão tão clara entre estes dois universos. Afinal, seria um erro achar que a política (aquela com P maiúsculo) não é também atravessada por relações de parentesco, interesses religiosos, ou mesmo por padrões que ditam quão desejáveis são os corpos que cabem dentro do decoro parlamentar ou das togas.

O que eu diria para este meu colega é que ambos falamos de política. A única coisa é que ele não precisa passar metade das suas falas tentando convencer seus interlocutores de que as pessoas comuns também estão fazendo política na vida banal e cotidiana, por mais estranho que isso possa parecer.