A lama em Mariana e em Brasília

Mariana

Jovens do MST foram presos enquanto pediam a punição por crime ambiental da Vale e da Samarco. Como já estamos relativamente acostumamos com a prisão, a violência e o uso de força desproporcional contra manifestantes (incluindo estudantes secundaristas, seus pais e professores) esta notícia poderia não chamar atenção, não fosse pela ironia de que eles foram presos precisamente sob a acusação de … crime ambiental. Na última quarta, 25/11, quatro integrantes do MST sujaram com lama um dos corredores da Câmara para protestar contra o novo código da mineração e a impunidade no caso de Mariana. Como parte de uma intervenção, o MST escreveu a palavra “morte” na parede. A escrita foi considerada uma pichação e como pichar uma edificação ou monumento urbano é um grave crime ambiental, os manifestantes podem passar os próximos quatro anos presos (soma-se ainda as acusações de injúria e resistência).

A lei contra crimes ambientais no Brasil (9.605/1998), protege não apenas a “natureza”, mas também a “cultura” definindo que o ambiente é composto por flora, fauna, recursos naturais e patrimônio cultural. A inclusão de patrimônio cultural é importante porque protege inclusive saberes de populações tradicionais como indígenas e quilombolas. Além disso, a separação entre natureza e cultura é algo artificial, convenção nossa, “ocidental”. Mesmo para quem não queira se aventurar na leitura de Bruno Latour para tratar da dicotomia natureza/cultura ou ainda de Judith Butler para discutir o lugar do biológico e do social na dicotomia sexo/gênero, o próprio discurso ecológico nos alerta para as consequências do fato de nós, seres humanos (sapiens culturales, já que é a cultura é que nos diferencia dos outros animais) nos vermos como separados da natureza, exteriores a ela. Esta relação senhor/escravo que impusemos à natureza é exatamente o que explica os crimes de Mariana e outros tantos.

É louvável que a lei contra crimes ambientais entenda a cultura como parte indissociável da natureza protegendo também o patrimônio cultural. O que é descabido é termos a esquizofrenia de vermos uma punição maior para uma ação de protesto do para um crime contra a vida do planeta (das pessoas, das plantas, animais, rios, oceanos). Caso os manifestantes do MST permaneçam presos, ao sair eles provavelmente irão reencontrar os seus, ao contrário de muitas famílias de Mariana que ainda estão em busca de seus parentes, amigos e filhos. Ao que consta, a parede da Câmara dos Deputados foi limpa e passa bem, era só argila. Já em Mariana e nos outros locais em que a lama se espalha, será preciso bem mais do que água e sabão. Carecemos de muito mais.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s