Pequenas táticas para politizar o cotidiano (Parte I)

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Outro dia, fui convidada para dar uma entrevista para a Revista Veja. Ao comentar com um colega de trabalho sobre minha dificuldade em sintetizar as ideias, ouvi que não era preciso me preocupar tanto. Afinal, eu não iria comentar sobre “política”, iria falar “só” sobre comportamento. Gostei muito do encorajamento, mas este “só” me deixou pensativa.

Entendi desta fala, vinda de alguém que tem seu espaço na mídia para falar sobre conjuntura política, partidos e demais temas do funcionamento institucional do poder que as pautas se dividem em dois tipos: as de política (estas sim, potencialmente perigosas) e as de comportamento (inofensivas, afinal, quem dá importância de fato para os temas ordinários e menores da vida cotidiana?). Que eu me lembre, eram nas seções sobre cotidiano, comportamento e seus equivalentes que costumávamos ver os obituários (quem, nascido após a II Guerra, lê obituários de jornais em pleno 2015?).

Eu havia sido chamada para falar sobre gênero (um termo tão amplo quanto as disputas conceituais que envolvem suas diferentes definições). Aparentemente há um fascínio recente da mídia pelos antropólogos como especialistas que podem falar sobre qualquer coisa que se pareça estranha. Confesso que este fascínio é menos culpa dos jornalistas e mais culpa dos antropólogos pelo tratamento histórico que demos ao “exótico”. Mas, graças a este fascínio, sou chamada para comentar o beijo gay da novela, meninos brancos e ricos querendo usar saia em colégios particulares ou meninos pobres e negros das periferias querendo comprar roupas da Hollister e outros temas aparentemente tão banais quantos estes.

Visto deste ângulo, a quem interessa tais banalidades? Desimportâncias da vida cotidiana? Para nós, os antropólogxs, ainda importa, por exemplo, se escrevemos “o” ou “a” ou “x” para falar deles, delas, delxs. Esta não foi só uma moda passageira. E importa porque pensamos as maneiras como nosso outros/outrxs constroem o que chamamos de “marcadores sociais da diferença”. Por que, no final das contas, importa como nossos outros – os meninos da escola, as meninas da marcha das vadias, as donas de casa, os guarani, os cientistas, os operadores da bolsa de valores, os pastores, e por ai vai – como estes outros constroem a sua política cotidiana. Ora mais próximos, ora menos da política que se torna mais óbvia no funcionamento institucional do poder: partidos, igrejas, ministérios, congressos, tribunais, sindicatos.

Se o meu colega se sente falando de política de verdade quando comenta sobre os rumos do governo Dilma, eu me sinto igualmente falando sobre política quando comento sobre movimentos sociais, feminismo, pobreza, novela, consumo, ou sobre como as pessoas usam seus paus de selfie, seus corpos ou o Facebook, por exemplo. Aliás, nem penso que exista uma divisão tão clara entre estes dois universos. Afinal, seria um erro achar que a política (aquela com P maiúsculo) não é também atravessada por relações de parentesco, interesses religiosos, ou mesmo por padrões que ditam quão desejáveis são os corpos que cabem dentro do decoro parlamentar ou das togas.

O que eu diria para este meu colega é que ambos falamos de política. A única coisa é que ele não precisa passar metade das suas falas tentando convencer seus interlocutores de que as pessoas comuns também estão fazendo política na vida banal e cotidiana, por mais estranho que isso possa parecer.

 

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